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Missão de vida: defensor público descarta antecipação de aposentadoria

Missão de vida: defensor público descarta antecipação de aposentadoria

Ao contrário do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, que antecipou a aposentadoria, o defensor público Fábio Liberalino da Nóbrega afirma que permanecerá na Defensoria Pública da Paraíba até ser alcançado pela aposentadoria compulsória. Aos 71 anos, diz que seguirá na carreira apesar de a Instituição pagar o menor subsídio entre todas as defensorias públicas estaduais do Brasil.

“Essa é uma realidade que vem sendo demonstrada em todo o país, especialmente diante do pior subsídio que é o da DPE-PB, mas, com certeza, eu acredito que os gestores da instituição encontrem uma saída para diminuir, pelo menos abrandar de uma forma mais pacífica para todos nós, aposentados e ativos, essa situação tão difícil”, diz, esperançoso.

A decisão de permanecer na Defensoria nasce de uma convicção construída ao longo de décadas de serviço público. “Eu nasci para ser defensor público, nasci para atender àqueles que procuram a Defensoria Pública em busca de justiça”, afirma. Embora reconheça que, em poucos anos, também integrará o grupo dos aposentados, trata essa etapa com naturalidade. “Somos todos chamados para isso. Esse será o nosso destino, o nosso objetivo final, que se chama aposentadoria.”

Essa mesma sensibilidade aparece na crônica Memórias de uma Caminhada, na qual transforma lembranças pessoais em parte da própria história da DPE-PB. O texto resgata a trajetória dos primeiros defensores públicos, chamados carinhosamente de “defensores dinossauros”, responsáveis por construir a instituição quando ainda faltavam estrutura, recursos e reconhecimento.

Em Pilar, onde atuou durante 13 anos, Fábio recorda que muitas vezes pagou do próprio bolso cópias de documentos, ajudou assistidos com alimentação e buscou garantir um mínimo de dignidade às pessoas que percorriam longas distâncias apenas para terem acesso à Justiça.

Mais do que um relato autobiográfico, o poeta natural de Santa Luzia no sertão da Paraíba que mantém raízes históricas e familiares na Fazenda Canadá, presta homenagem aos pioneiros que ajudaram a consolidar a DPE-PB como instrumento de cidadania na Paraíba. A narrativa revela o mesmo compromisso humano que marca sua atuação profissional e preserva a memória de uma geração que transformou a defesa dos mais vulneráveis em missão de vida, demonstrando que algumas vocações permanecem vivas muito além do tempo de serviço.

Cândido Nóbrega

Memórias de uma caminhada (Uma crônica que me esqueci de publicar)

A trajetória do Defensor Público jamais foi marcada pelo conforto. Ela foi construída com coragem, persistência e, muitas vezes, com sacrifícios silenciosos feitos por homens e mulheres que decidiram dedicar suas vidas à promoção da justiça social. Os primeiros defensores públicos da Paraíba — hoje carinhosamente lembrados como “DEFENSORES DINOSSAUROS” — somos verdadeiros pioneiros. Abrimos caminhos onde antes existia apenas ausência institucional e fizemos nascer esperança em lugares onde o acesso à justiça parecia impossível.

Durante muitos anos, os “DINOS” enfrentaram estruturas precárias, escassez de recursos e uma demanda social imensa. Ainda assim, nunca deixou de cumprir sua missão. Quando exerci a função na comarca de Pilar, onde permaneci por treze anos, testemunhei de perto essa realidade. Muitas vezes utilizei recursos do próprio bolso para assegurar o mínimo de dignidade aos assistidos. Pagava cópias, providenciava documentos e, não raras vezes, oferecia um simples lanche àqueles que chegavam de cidades vizinhas sem sequer terem tomado o café da manhã. Alguns vinham a pé. Outros, de bicicleta. Todos carregavam a mesma esperança: serem ouvidos e encontrarem justiça. Apesar dos importantes avanços conquistados ao longo dos anos, o Defensor Público do Estado da Paraíba ainda convive com um desafio histórico: a insuficiência de subsídio – recebemos o pior subsidio da Federação diante da enorme demanda social existente, o que nos leva muitas das vezes sermos vistos como o “patinho feio” entre as instituições do sistema de justiça.

Mas talvez seja justamente dessa realidade que nasça a maior força do DEFENSOR DINOSSAURO: a capacidade de permanecer firme, mesmo diante das limitações, sem jamais abandonar aqueles que mais precisam, porque a Defensoria Pública não é feita apenas de processos. Ela é feita de pessoas. De histórias. De vidas transformadas pelo acesso à justiça. Assim, enquanto houver alguém sem voz, sem defesa ou sem esperança, continuará existindo razão para a nossa luta, a luta de um DINOSSAURO DEFENSOR. (Minha homenagem a todos aqueles que fizeram — e continuam fazendo — da Defensoria Pública um verdadeiro instrumento de cidadania e dignidade).

Fábio Liberalino da Nóbrega CANADÁ. Def. Público – DP3.

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