Enquanto o corpo desacelera, o cérebro continua trabalhando. É durante o sono que o organismo organiza memórias, regula emoções e recupera funções essenciais para o dia seguinte. Por isso, uma noite de sono adequada ocupa um papel central na manutenção do equilíbrio físico e mental. Para adultos, a recomendação geral costuma ficar entre 7 e 9 horas por noite, mas a qualidade desse período também determina o quanto o descanso será reparador.
A relação entre sono e saúde mental é profunda e acontece nos dois sentidos. Noites mal dormidas podem aumentar a irritabilidade, a ansiedade e a dificuldade de concentração, enquanto transtornos psiquiátricos, como depressão e ansiedade, também podem provocar alterações importantes no ciclo do sono.
Segundo o médico psiquiatra Kaike Thiê, professor de pós-graduação e educação continuada da Afya Educação Médica, entender essa relação é importante para reconhecer quando uma alteração no sono merece atenção.
“Dormir não é somente descansar. O sono é um processo ativo e indispensável para a homeostase do organismo, particularmente para o funcionamento cerebral e a saúde mental. Enquanto dormimos, acontecem processos fundamentais para consolidação da memória, aprendizagem, regulação emocional e recuperação de diferentes sistemas do organismo”, explica o professor.
Noites mal dormidas afetam o funcionamento durante o dia
Uma noite de sono ruim pode repercutir diretamente no funcionamento do organismo durante o dia seguinte. A privação ou a baixa qualidade do descanso interfere na forma como o cérebro processa informações, regula emoções e responde aos estímulos cotidianos. Com isso, atividades que exigem atenção, tomada de decisão e controle emocional podem se tornar mais difíceis.
“Em outras palavras, o sono não interfere somente em como nos sentimos fisicamente: ele modifica a maneira como percebemos e reagimos ao mundo. Quando a alteração se torna frequente, os efeitos podem ultrapassar a rotina e contribuir para prejuízos na produtividade, nas relações sociais e na qualidade de vida”, afirma Kaike Thiê.
A privação crônica de sono também está relacionada a impactos na saúde física. Dormir inadequadamente pode favorecer alterações metabólicas, aumento da pressão arterial e maior risco de diabetes e problemas cardiovasculares. O descanso adequado, por outro lado, participa da regulação do metabolismo, do fortalecimento do sistema imunológico e da recuperação do organismo.
Sono e transtornos psiquiátricos têm relação de mão dupla
Na psiquiatria, observar o padrão de sono também pode ajudar na identificação de alterações na saúde mental. A insônia persistente, por exemplo, pode estar relacionada a quadros de ansiedade e depressão, ao mesmo tempo em que esses transtornos podem comprometer a capacidade de iniciar ou manter o sono.
“Sono e saúde mental estabelecem uma relação de mão dupla. Transtornos como depressão, ansiedade e transtorno bipolar frequentemente provocam alterações importantes do sono, mas o caminho inverso também existe: dormir mal de forma persistente pode contribuir para a instabilização de transtornos preexistentes e funcionar como um dos fatores precipitantes para o surgimento de novos episódios de adoecimento”, destaca o psiquiatra.
Por isso, alterações persistentes no padrão de sono não devem ser banalizadas. Mudanças importantes na necessidade de dormir, especialmente quando acompanhadas de aumento de energia, aceleração do pensamento ou impulsividade, também podem indicar alterações do humor e precisam de avaliação profissional.
Cansaço constante não deve ser normalizado
Em uma rotina marcada por excesso de trabalho, estudos, conectividade e estímulos digitais, muitas pessoas passam a considerar o cansaço como algo normal. O sono acaba sendo reduzido para que outras atividades caibam na agenda, criando uma espécie de dívida que pode aparecer durante o dia.
“Vivemos em uma sociedade permanentemente conectada, marcada por jornadas extensas, relações de trabalho cada vez mais fragmentadas, redes sociais e uma sensação constante de que deveríamos estar produzindo, consumindo ou participando de alguma coisa”, observa Kaike Thiê.
Sonolência durante o dia, irritabilidade persistente, esquecimentos, queda de produtividade, piora da ansiedade e necessidade crescente de estimulantes para manter o rendimento são alguns sinais de que o sono já pode estar afetando a saúde. “Se o seu sono está cobrando a dívida durante o dia, ele já deixou de ser um problema apenas da noite”, alerta o professor.
Higiene do sono ajuda a recuperar o ritmo
Entre as estratégias para melhorar a qualidade do sono estão medidas conhecidas como “higiene do sono”. Manter horários regulares para dormir e acordar, inclusive nos fins de semana, ajuda a organizar o relógio biológico. A exposição à luz natural pela manhã, a prática regular de atividades físicas e a redução do consumo de cafeína no fim do dia também podem contribuir para um descanso melhor.
O ambiente também faz diferença. O quarto deve ser, preferencialmente, escuro, silencioso e confortável, enquanto cama e horário de dormir devem ser associados ao descanso. Refeições muito pesadas à noite também podem dificultar o sono, assim como o consumo de álcool, que não deve ser utilizado como estratégia para induzir o adormecimento.
Outro ponto de atenção é o uso de celulares, tablets, computadores e televisão antes de dormir. Mais do que a exposição à luz das telas, o excesso de estímulos e informações pode manter o cérebro em estado de alerta justamente no momento em que deveria iniciar uma transição para o descanso.
“Levamos conosco trabalho, mensagens, notícias, vídeos curtos, discussões e redes sociais construídas para disputar continuamente nossa atenção. O cérebro que deveria estar progressivamente reduzindo seu nível de ativação continua recebendo novidade, recompensa e informação até poucos minutos antes de tentarmos dormir”, explica o professor.
Quando procurar ajuda?
Uma noite mal dormida após um dia difícil pode acontecer com qualquer pessoa. A atenção deve aumentar quando as alterações se tornam frequentes, persistentes ou passam a provocar sofrimento e prejuízos durante o dia. Insônia recorrente, sonolência excessiva, alterações de humor, dificuldades de memória e concentração e queda significativa no rendimento são motivos para buscar avaliação profissional.
Também é importante observar sinais como roncos intensos, pausas na respiração durante o sono, despertares com sensação de sufocamento e comportamentos incomuns durante a noite. Esses sintomas podem estar relacionados a diferentes distúrbios do sono e precisam ser investigados por um profissional habilitado.
Para o especialista, cuidar do sono é uma forma de cuidar da saúde como um todo. “O sono não é o intervalo entre dois dias produtivos. Ele é parte fundamental do que nos permite viver bem o dia seguinte”, conclui.