Skip to content Skip to footer

Poluição sonora leva proprietário a vender cobertura em Camboinha

Poluição sonora leva proprietário a vender cobertura em Camboinha

Localização privilegiada, vista permanente para o mar e metragem generosa nem sempre garantem tranquilidade. Em Camboinha, um aposentado decidiu colocar à venda uma cobertura de 263 m² após concluir que o nível de som ensurdecedor no local tornou inviável sua permanência no Residencial Ilha de Paquetá, localizado à Rua Alfredo Nóbrega, nº 338. A unidade foi reformada e é ofertada com “porteira fechada”, isto é, com móveis, utensílios e tudo.

Segundo o proprietário, Olavo Sousa, de 79 anos, a frequência de eventos realizados no espaço de eventos a céu aberto Unique Beach, localizado em frente ao prédio, de até cinco vezes por semana, comprometeu o uso do imóvel. Em períodos de maior intensidade, como feriados prolongados e período de fim de ano, o barulho avança pela madrugada, levando-o a dormir fora de casa, após investir caro e em vão em uma porta acústica em um dos quartos.

Frustração também com a Sudema

Olavo procurou o órgão, mas descreve um percurso burocrático que envolve encaminhamentos sucessivos, necessidade de advogado e abaixo-assinado coletivo, o que para um idoso e aposentado como ele, torna o processo inviável. Seu sentimento é de revolta e impotência diante de um problema que atinge vários moradores, muitos dos quais passaram a dormir na casa de parentes em noites de eventos mais barulhentos: “Espero que a justiça tome conta desse negócio aí que não tem cristão no mundo que aguente”, concluiu.

A decisão decorreu da impossibilidade de conciliar o padrão do imóvel com a rotina imposta pelo entorno: “Tenho dó de muita gente que mora aqui ao lado, aqui na frente também, que, não está dormindo”. O imóvel permanece há meses com placas de anúncios de venda na frente do prédio fixada por ele (83) 99645-0718 e pelo corretor de imóveis Sérgio Ribeiro (83) 99900-3387, da imobiliária Remax Atenas, localizada no bairro de Manaíra, em João Pessoa.

De acordo com Sérgio, a cobertura duplex ocupa o 4º e 5º andares do prédio, tem vista impecável e ampla (180 graus) para o mar (frente) e conta com os 263 m2 distribuídos em três suítes, dependência, salas e ampla área de lazer com deck e piscina, e a taxa condominial é de R$ 630,00.

Valor pedido baixou

Segundo o corretor, o valor pedido de R$ 1.350.000,00 (hum milhão trezentos e cinqüenta mil reais) foi reduzido para R$ 1.290.000, com um histórico de oferta recusada pelo proprietário, de R$ 1.000.000, por considerá-la baixa.

“Ele não aceita permuta, salvo por casa de 1º andar na área de Camboinha. Para compradores sensíveis a ruído, a proximidade com o Unique pode ser decisiva e prejudicar a venda, pois o som dos eventos atrapalha quem não gosta de barulho”, acrescentou, e chegou a considerar o isolamento acústico em um dos quartos (porta), como uma solução viável de mitigação.

Impacto além da experiência pessoal

A situação não é isolada e afeta outros residentes da área. O comerciante aposentado Antônio Rodrigues Martinez, de 82 anos, que se mudou recentemente de São Paulo, vive a poucos metros do espaço de eventos e relata impacto direto sobre a saúde da esposa, diagnosticada com Alzheimer há 10 anos: “Infelizmente, a gente caiu num lugarzinho que eu esperava que tivesse tanto barulho”, disse, entristecido.

Vivendo a poucos metros do espaço de eventos, o casal já precisou se retirar de casa na virada do ano, com hospedagem custeada pelos organizadores do evento de Reveillón “Revirá”, animado por bandas como a Furacão 2000, que começou a tocar por volta das 4h do dia 1º.  Ele disse imaginar o sofrimento há tantos anos de Olavo: “Não é justo, não é certo ele ter que se desfazer para poder sair fora do barulho”, afirmou, solidário.

Outros vizinhos relatam incômodos com barulhos com montagem e desmontagem de estruturas desde cedo da manhã em qualquer dia da semana e prejuízos a bebês, pessoas autistas e animais domésticos, especialmente cães, todos sensíveis a ruídos intensos e prolongados, evidenciando que a questão ultrapassa o interesse individual e alcança a qualidade de vida coletiva, fator cada vez mais observado por compradores de imóveis residenciais de médio e alto padrão.

Insegurança jurídica e desvalorização imobiliária

O fato chama atenção para a falta de segurança jurídica do entorno. Em Cabedelo, o Código de Posturas Municipal (Lei Complementar nº 001/2014) impõe limites ao ruído em áreas residenciais; no plano estadual, a Lei nº 6.757/1999 autoriza a fiscalização ambiental; e, em nível federal, a Lei nº 6.938/1981 e o artigo 225 da Constituição tratam o excesso de ruído como poluição ambiental. Já para o mercado imobiliário, é um exemplo de que quando o sossego desaparece, o imóvel perde valor, liquidez e segurança jurídica.

Mostrar comentáriosFechar comentários

Deixe seu comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.