Uma frondosa mangueira no Portal do Sol perdeu a imagem que costuma evocar sombra, frutos e descanso: o tronco recebeu um cinturão de concertina, sem qualquer sinalização de alerta, em uma rua alguns quarteirões por trás da Escola Kairós, em João Pessoa. O objetivo do anelamento foi aumentar a segurança do imóvel, evitar o furto das mangas ou ambos?
Fabricada em aço galvanizado ou inox, a concertina nasceu como uma evolução do arame farpado aperfeiçoada dos campos de concentração nazistas até se tornar padrão na proteção de presídios, residências e condomínios. O que pouca gente percebe é sua capacidade de provocar ferimentos gravíssimos quando instalada ao alcance de pessoas e animais, já que suas lâminas espiraladas funcionam como pequenas navalhas.
Riscos de cegueira e óbito
Em um contato acidental, as lâminas perfuram a pele em múltiplos ângulos simultaneamente. Quanto mais a vítima se debate para se soltar, mais a estrutura se ancora, aprofundando cortes que podem atingir vasos sanguíneos, tendões e nervos, com risco de hemorragias fatais. Em crianças, devido à menor estatura, o perigo se concentra no rosto e nos olhos, podendo causar cegueira.
Ameaça aos animais e à vegetação
Para gatos e aves, a estrutura em espiral se transforma em uma armadilha fatal. Ao tentarem se libertar, o pânico intensifica os ferimentos, levando à morte por hemorragia em poucos minutos ou, em caso de fuga, por infecções graves causadas pela contaminação das feridas.
Além disso, à medida que o tronco da árvore cresce, a estrutura metálica age como um torniquete vegetal. Esse anelamento estrangula a casca, dificulta a circulação da seiva e abre portas para pragas e fungos, comprometendo gradativamente a vitalidade da mangueira. Assim, o equipamento usado para proteger um patrimônio acaba destruindo outro.
Requisitos legais e segurança
Em João Pessoa, o valor médio do metro linear instalado varia entre R$ 25 e R$ 45, a depender do modelo e da estrutura do local. Embora sua eficiência contra invasões seja reconhecida, a instalação exige responsabilidade coletiva: o equipamento não pode avançar sobre a calçada e exige placas de advertência visíveis.
A instalação deve respeitar o Código de Posturas do Município de João Pessoa, mantendo a cerca restrita ao limite do lote. Deve também atender às exigências de altura mínima e sinalização da Lei Estadual nº 7.613/2004 (2,10 m) e, para modelos eletrificados, da Lei Federal nº 13.477/2017 com as NBRs da ABNT (2,20 m e choque de amperagem não letal).
Cândido Nóbrega