Em outubro de 2006, quando o digital avançava sobre o papel e muitos veículos impressos estavam prestes a fechar as portas, a revista piauí chegou às bancas na contramão desse movimento. Vinte anos depois, o jornalista investigativo Breno Pires lembra que a publicação nasceu com uma proposta pouco convencional, inclusive no formato: uma revista grande, que pede mochila para ser carregada.
“Uma aposta na profundidade, na qualidade, no jornalismo que vai trazer um esclarecimento, que não está preocupado em ser o primeiro, mas quer ser o melhor naquele assunto”.
A meta é que cada reportagem se torne referência no tema, com texto claro num tempo em que até grandes veículos publicam matérias difíceis de compreender. Ele fala por experiência própria: ao começar a cobrir o Judiciário em Brasília, admite que nem sempre entendia o que estava sendo decidido em julgamentos da área econômica e precisava pedir ajuda.
No jornalismo investigativo, a Lei de Acesso à Informação (LAI) é ferramenta essencial para fiscalizar gastos e contratos públicos, mas tem limites. O prazo de resposta, de 20 dias prorrogáveis por mais 10, pesa numa cobertura quente como a eleitoral. “Mas para a cobertura do dia a dia, eu acredito muito no planejamento no jornalismo”, pondera. Pedidos feitos em série podem levar meses, mas rendem histórias, sobretudo no jornalismo local. Documentos e fontes qualificadas completam o trabalho, sempre com atenção para não servir de massa de manobra. “A gente tem que saber quando uma fonte está querendo tirar você do caminho que você está indo”, alerta, lembrando que esse faro vem com a experiência.
Recifense, Breno cresceu no bairro da Torre, do qual se considera “cria”, formou-se na UFPE e deixou a cidade aos 24 anos, passando por São Paulo e Rio antes de chegar a Brasília, onde vive há dez. Diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), voltou à cidade natal ontem para trocar experiências com estudantes e profissionais. “Para mim o jornalismo é uma vocação, então fazer jornalismo, me dedicar e debater são algumas das coisas que eu mais gosto de fazer”, afirma.
O aniversário da revista, avalia, chega em boa hora: “Os 20 anos da Piauí vêm num momento muito bacana, que é um momento que a publicação pôde aparecer muito no processo, nas eleições, com trabalhos, com denúncias muito sérias”. Entre esses trabalhos está uma reportagem conduzida por ele que cruzou fontes e dados do celular de Daniel Vorcaro para medir a frequência de contatos com nomes da direita. Num debate guiado por opiniões, diz, os números falam com mais propriedade.
Breno Pires foi um dos protagonistas do Festival de Jornalismo Recife 2026, idealizado pela jornalista Kátia Cubel, presidente do Prêmio Engenho de Comunicação, e realizado ontem no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE), que também apoiou o evento. O festival teve patrocínio do Banco do Nordeste, do Governo do Brasil, da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco e da Assembleia Legislativa de Pernambuco, além do apoio da Prefeitura do Recife, do Instituto Palavra Aberta, da RXZ e do Jornalistas&Cia..
Cândido Nóbrega