Estive esta semana na capital pernambucana, percorri a Avenida Recife, no bairro de Areias, um dos corredores arborizados da Via Verde, programa que inclui as árvores no planejamento urbano e ambiental da cidade. Ao longo da via, a sombra protege pedestres e ciclistas, a temperatura é mais amena e o ruído do trânsito chega mais baixo.
Lembrei logo de avenidas de João Pessoa, a exemplo da Ruy Carneiro. Houve um tempo em que árvores se enfileiravam pela extensão desse que continua sendo um dos principais corredores da cidade, oferecendo conforto térmico e sombra a ciclistas e a pedestres que esperavam no canteiro a hora de atravessar.
Todas foram cortadas, e nenhuma voltou a ser plantada no lugar. Com elas se foram a proteção do solo, a ajuda na regulação do ciclo da água, o abrigo para pássaros e insetos, o ar mais limpo e a barreira natural contra o ruído, numa cidade que precisa enfrentar as mudanças climáticas.
Isso ocorreu junto às sucessivas qualificações, palavra elegante para intervenções constantes e confusas. A ciclovia no trecho compreendiod entre as esquinas das Av. Maruia Rosa e Epitácio Pessoa desapareceu, as faixas foram alargadas e uma delas, apresentada como ciclofaixa, se mistura às demais passou a ser usada por veículos leves e pesados. O ciclista, que antes tinha sombra e espaço próprio, hoje pedala exposto ao sol e ao trânsito, arriscando sua vida.
João Pessoa, frequentemente apresentada como uma das capitais mais verdes do país e conhecida como a “Queridinha do Nordeste”, perde arborização urbana à medida que cresce e se verticaliza. Dados do IBGE mostram que, em 2022, apenas 53,2% dos moradores viviam em vias com pelo menos uma árvore, percentual inferior à média nacional de 66%. O índice deixou a capital paraibana na 17ª posição entre as capitais brasileiras.
O exemplo pernambucano prova que é possível conciliar mobilidade urbana, desenvolvimento e preservação do meio ambiente no mesmo projeto.
Cândido Nóbrega