A “Queridinha do Nordeste” descobriu que crescer rápido tem um alto preço. A capital que atraía famílias em busca de praias tranquilas, deslocamentos curtos e custo de vida mais leve já há algum tempo agora convive com imóveis inflacionados, congestionamentos diários e pressão sobre serviços básicos, sobretudo saneamento básico, com extravasamentos e esgoto em vias públicas e no mar, e condomínios residenciais pagando por carros pipa com água para consumo humano.
A publicitária Rebeca Cirino e o advogado Ezequiel Ribeiro deixaram São Paulo tentando recuperar tempo e qualidade de vida, mas encontraram uma cidade diferente daquela de poucos anos atrás. O coco que custava R$ 2 já chega a R$ 7, enquanto um percurso de cinco minutos pode consumir meia hora nos horários de pico. Dados do último Censo do IBGE mostram que João Pessoa foi a quinta capital que mais ganhou habitantes no país e hoje soma 833.932 moradores.
Planejamento condicionado a interesses
A mudança mais visível aparece na ocupação urbana. O geógrafo Alexandre Sabino do Nascimento, professor da Universidade Federal da Paraíba, avalia que o crescimento da cidade segue uma lógica fortemente ligada à valorização fundiária e imobiliária. “Não podemos dizer que a cidade está sem planejamento. O que temos é um planejamento que atende a determinados interesses”, afirma. Segundo ele, incorporadoras ampliaram a concentração de terrenos e alteraram o perfil de bairros inteiros da capital, o que gera alta concentração de terrenos e escassez no mercado, o que encarece a cidade como um todo.
Estão criando uma cidade para o mercado imobiliário
Nascimento também chama atenção para um déficit habitacional estimado em 50 mil moradias e para famílias que já comprometem mais de 30% da renda apenas com aluguel. Para o pesquisador, mudanças nas regras urbanísticas e ambientais aprofundam desigualdades sociais.
A reportagem da jornalista Priscila Carvalho, publicada ontem pela BBC News Brasil, em Bangkok, na Tailândia, mostra que a valorização da orla se tornou símbolo dessa transformação O ambientalista Marco Túlio Gusmão, do Movimento Esgotei, afirma que João Pessoa registrou a segunda maior valorização imobiliária entre as capitais brasileiras, com alta de 15,15%, atrás apenas de Salvador. “A valorização imobiliária é um dos principais fatores para o aumento do custo de vida em João Pessoa”, diz. O aumento da população, acompanhado pelo crescimento urbano acelerado, ocorre especialmente nessa região, também alimenta discussões sobre gentrificação.
m² sobe 10,4% em um ano
O corretor de imóveis Caio César de Queiroz Ferreira observa que bairros como Cabo Branco, Tambaú, Manaíra, Bessa e Altiplano passaram a concentrar imóveis de alto padrão impulsionados por investidores e novos moradores de maior renda. Em março, enquanto o metro quadrado médio da capital chegou a R$ 8 mil, Cabo Branco alcançou R$ 12,3 mil, com alta de 10,4% em 12 meses.
Imobilidade urbana
O crescimento populacional também alterou a circulação da cidade. O ambientalista Marco Túlio, do Movimento Esgotei, relaciona o avanço imobiliário ao aumento acelerado da frota de veículos, que saiu de 474 mil automóveis, em 2024, para mais de 501 mil em 2026, segundo dados da Secretaria Nacional de Trânsito. O impacto aparece nos corredores da orla, nos bairros mais verticalizados e até nas praias, hoje muito mais cheias do que no período anterior à pandemia. A cidade que vendia tranquilidade começou a enfrentar problemas típicos de grandes centros urbanos sem que infraestrutura e mobilidade acompanhassem o mesmo ritmo.
Esgotos nas ruas e no mar
O pesquisador Joácio Morais Júnior, coordenador do Laboratório de Sistemas Ambientais Urbanos da UFPB e presidente do Instituto Arbor, afirma que a expansão urbana já produz efeitos preocupantes sobre o saneamento e o meio ambiente. “Há risco real de danos irreversíveis. Esses sistemas têm um ponto de não retorno. A solução técnica para o saneamento é, portanto, uma medida de sobrevivência biológica e econômica para a capital”, afirma.
Para ele, os impactos podem atingir diretamente o turismo, a pesca e os ecossistemas costeiros. Dados do Instituto Trata Brasil indicam que 72,36% do esgoto da cidade é coletado e encaminhado para estações de tratamento, enquanto o restante ainda tem destino incerto, podendo ir de fossas sépticas a ligações clandestinas e descarte direto em rios que deságuam no mar,
Divergências sobre cobertura de serviços
Joácio também explica divergências entre levantamentos sobre cobertura de esgoto, cujos serviços foram alvo de bilionária PPP. “Parte dos dados considera apenas áreas formalmente atendidas, enquanto outros incluem regiões periféricas ainda sem cobertura plena”. Segundo o pesquisador, para equilibrar o crescimento acelerado de João Pessoa com a preservação ambiental e a viabilidade do turismo, as ações do poder público precisam atacar tanto a infraestrutura invisível, que é o saneamento, quanto o planejamento visível, ligado ao uso do solo.
A reportagem procurou a Cagepa, responsável pela coleta de esgoto na região, mas não obteve resposta até a publicação.
Confira abaixo ficha técnica de João Pessoa integrante do edital da Parceria Público Privada, cujo leilão teve a empresa espanhola Acciona como única competidora no Leilão internacional realizadoem São Paulo pela B3 núltimo dia 15 de maio.
Cândido Nóbrega com BBC Brasil. Foto: BrasildeFatoPB