Apartamentos de 25 m² representam, para a arquiteta e advogada Patrícia Macedo, um modelo que exige muita reflexão antes de se consolidar nas capitais nordestinas. Ao analisar a expansão dos chamados lets e softs, considera que a importação desse conceito, difundido em grandes centros, ignora aspectos culturais, polulacionais e urbanos próprios da região: “Eu vi apartamentos assim sendo oferecidos em São Paulo e acho isso desumano”.
E acrescentou que espaços de moradia reduzidos comprometem a convivência característica do Nordeste e estimulam processos de gentrificação, questionou empreendimentos que prometem localização privilegiada e preços atrativos sem discutir a qualidade do espaço oferecido ao morador:
“Nós, nordestinos, temos o hábito de receber amigos e familiares, de conviver com a vizinhança, de ir à padaria e à farmácia do bairro. Não podemos importar modelos urbanos sem considerar nossa identidade. Que nível de que moradia é esse? O que essas construtoras querem?”
Lição histórica
Patrícia lembra os efeitos da Revolução Industrial sobre cidades que cresceram sem planejamento para defender um urbanismo voltado à escala humana e à qualidade de vida. À época, o crescimento rápido das cidades mal planejado forçou os trabalhadores a viver em locais ruins e distantes, o que criou moradias cheias e sem higiene, num exemplo histórico de estilo de crescimento urbano que prejudicou a saúde e a vida das pessoas.
Alteração da configuração urbana
Como presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Norte (CAU-RN), ela avalia que a atualização do Plano Diretor alterou significativamente a configuração urbana da capital que possui poucas áreas de expansão devido às dunas. A flexibilização dos limites de altura das edificações produz impactos que merecem atenção em uma cidade marcada também pela preservação de sua paisagem cênica.
Ela observa que a convivência entre edifícios de até quarenta pavimentos e construções muito mais baixas modifica a leitura da cidade e exige planejamento permanente para compatibilizar crescimento urbano e preservação ambiental. “Sempre tivemos a preocupação de proteger essa paisagem. Ela faz parte da identidade de Natal”, afirmou.
Mobilidade urbana nota 8
Como arquiteta e urbanista, Patrícia Macedo considera que a mobilidade urbana de Natal permanece entre os pontos positivos da capital potiguar. Para ela, as rotatórias cumprem bem seu papel quando respeitadas pelos motoristas e ajudam a dar fluidez ao trânsito.
Na avaliação da urbanista, Natal ainda conserva uma vantagem em relação a outras capitais nordestinas. “De zero a 10 dou nota 8 para a mobilidade urbana. Ainda conseguimos nos deslocar entre pontos distintos em 10 a 15 minutos, realidade diferente da observada em cidades como Recife”, afirma.
Mudanças drásticas poderiam criar outra cidade
Ainda como presidente do CAU-RN, ela esclarece que o Conselho acompanhou o debate sobre a malfadada engorda da Praia de Ponta Negra por meio das informações públicas divulgadas pelos órgãos envolvidos, mas não recebeu comunicação oficial para participar das discussões técnicas. Ela acrescenta que a entidade aguarda a oficialização de uma cadeira no Conselho Municipal do Meio Ambiente, o que permitirá participação institucional em temas dessa natureza. O Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) é a entidade de classe que geralmente se posiciona em temas de meio ambiente e espaço público, independentemente de provocação
Já como arquiteta e urbanista, Patrícia é contrária à intervenção, pois está diretamente ligada à paisagem formada pelo Morro do Careca e pela faixa litorânea: “Sempre houve uma preocupação em proteger essa paisagem, e isso sempre foi muito bem disciplinado pelo Plano Diretor, a identidade do local a ela está atrelada, e alterações drásticas poderiam descaracterizá-la completamente, criando outra cidade’”, conclui.
Ausência do CAU no Conselho Municipal do Meio Ambiente
O Conselho não possui assento no Conselho Municipal do Meio Ambiente, o que limita sua participação oficial em decisões como a da engorda da praia. Já foi solicitada a inclusão do conselho e a indicação de nomes, mas o processo segue em trâmite e não houve devolutiva oficializando a participação.
Cândido Nóbrega