A cidade de Natal, distante 181 Km de João Pessoa, oferece hoje exemplos caros e visíveis de como intervenções urbanas, construtivas e imobiliárias vendidas como solução podem terminar em custos permanentes, judicialização e desgaste ambiental e paisagístico. Na quinta e sexta-feira, durante agenda na capital potiguar para cobertura de congresso, me chamou atenção a combinação entre obras milionárias cercadas de promessas oficiais e problemas estruturais que continuam expostos diante de moradores, turistas e investidores.
A engorda da praia de Ponta Negra, entregue em janeiro de 2025 ao custo de R$ 100 milhões em recursos públicos sofre com alagamentos, deficiência de drenagem e retorno da areia ao mar em trechos próximos ao Morro do Careca, onde, além de alagar, a areia é levada de volta ao mar, obrigando a Prefeitura de Natal a anunciar novos R$ 21 milhões em obras complementares.
Relatório do Ministério Público Federal e uma Ação Civil Pública apontam problemas no sistema de drenagem implantado na engorda da praia. O Crea-RN apresentou em 2024 o projeto executivo da citada obra exibiu detalhes técnicos do processo de recuperação da faixa de areia da principal praia de Natal, considerada pelo órgão como cartão-postal do Estado.
Reflexão e preocupação
Quando uma obra de R$ 100 milhões precisa de mais R$ 21 milhões para corrigir erros poucos meses após a entrega, o debate deixa de ser sobre estética urbana e passa a ser sobre responsabilidade técnica, planejamento público e respeito ao dinheiro da população.
O mais preocupante é que esse mesmo modelo foi defendido com entusiasmo para a orla de João Pessoa por lideranças políticas, setores da construção civil e integrantes da própria gestão pública municipal, sem o devido aprofundamento técnico sobre riscos ambientais, drenagem, dinâmica costeira e custos futuros de manutenção.
A experiência de Ponta Negra mostra com clareza que obras de grande impacto urbano e ambiental não podem ser conduzidas apenas pelo apelo político do momento, mas pela responsabilidade técnica, pela sustentabilidade e pelo compromisso de evitar desperdício de recursos públicos.
Justiça garante cumprimento da Lei do Gabarito
Na Via Costeira, corredor turístico ladeado pelo Oceano Atlântico e pelo Parque das Dunas, permanece há 21 anos o esqueleto sujo, feio e abandonado do antigo hotel da empresa aérea BRA. O empreendimento desrespeitou o limite máximo de 15 metros de altura permitido pelo Plano Diretor de Natal e pela legislação urbanística municipal.
A Justiça Federal determinou a demolição do oitavo andar da estrutura, mas a falência da empresa e a longa disputa judicial transformaram o prédio em símbolo permanente de conflito entre expansão imobiliária, interesses econômicos e fragilidade do controle urbano.
Condôminos enfrentam estações de calvário
Outro episódio que continua produzindo desgaste urbano envolve o Condomínio Residencial 4 Estações, no bairro de Candelária, entregue em 2011 pela construtora Ecocil. Moradores enfrentaram atrasos, falhas de acabamento e fissuras em fachadas, apartamentos e áreas comuns.
Os reparos ocorrem após assinatura de Termo de Ajustamento de Conduta, tendo como referência condenação judicial anterior envolvendo outro empreendimento da mesma empresa também na Zona Sul de Natal, o Condomínio Residencial Ecocil Sports Park. Casos assim ajudam a entender por que parte da população passou a olhar com desconfiança projetos apresentados como sinônimo automático de modernização urbana.
Cândido Nóbrega