Comissões que chegam a irrisórios 1,5%, cursos de formação “faz de conta” e cada vez mais profissionais despreparados estão, segundo corretoras das cidades de Santa Rita e de Sousa, desvalorizando a profissão na Paraíba e comprometendo a reputação da categoria que soma mais de 20 mil registros no estado.
Alice Lima, que atua há 13 anos na “Terra dos Canaviais” e Regina Estrela, conselheira e delegada do Creci-PB na “Cidade Sorriso”, no Sertão do estado afirmam que apesar de 5% ser o percentual praticado por grande parte das construtoras, o aviltamento de honorários prejudica a qualidade do serviço prestado aos clientes, penaliza profissionais que investem em estrutura e cria concorrência desleal.
Alice atribui parte do problema a cursos de Técnico em Transações Imobiliárias (TTI), que têm como requisito de escolaridade só o ensino médio: “Não preparam para nada, muito menos quanto à ética, respeito e honestidade”, e a entrada diária dessas pessoas agrava problemas de conduta no mercado.
Foco arrecadatório
Segundo ela, o conselho faz “vista grossa” diante de irregularidades e estaria mais preocupado com a arrecadação das anuidades, atualmente em R$ 918,00, o que evidencia uma “farra” e descaso com a fiscalização ética. Apenas entre 2021 e 2024, a receita corrente realizada pelo órgão passou de R$ 5.148.055,00 para quase R$ 10 milhões, num salto de 91,77%.
“Quando surgem comissões de 1,5%, 2% ou 3%, isso não vem das construtoras, mas de corretores que reduzem a própria comissão para fechar negócios e se dispõem a trabalhar por esses percentuais. Isso “desalinha” o mercado e prejudica colegas que seguem o padrão de 5%. Tais práticas não se sustentam no longo prazo e esses profissionais tendem a não durar, enquanto quem trabalha de forma honesta permanece ativo”, acrescenta
Intermediários de construtores
Regina também cita a desqualificação na crescente entrada de corretores no mercado e relata que em Sousa, construtores, em busca de redução de custos, recorrem a intermediários para diminuir a remuneração de quem efetivamente realiza a venda. “Tento tirar isso do mercado para valorizar a profissão”, diz.
Para ela, um construtor que usa um intermediário que fica com 1,5% e paga 1,5% ao corretor que vende, totalizando 3% para a construtora, resulta, segundo ela, em comissão muito baixa para o corretor final: Os corretores que investem em marketing e serviços diferenciados são penalizados, enquanto construtores focados em custo preferem pagar menos. A qualidade geral cai, pois quem cobra menos tende a não oferecer trabalho especializado”.
Necessidade de profissionalizar o mercado
E acrescenta que busca elevar os padrões da atividade no município, pois entende que a valorização da corretagem passa por qualificação, fiscalização e respeito aos custos de um serviço especializado, medidas que na sua avaliação, também protegem o cliente de um atendimento inferior: “Há necessidade de elevar a qualificação dos corretores, cobrindo desde corretagem básica até regularização e avaliação”.
Exercício ilegal com auxílio de corretor
Em Sousa, com cerca de 70 mil habitantes, a preocupação inclui ainda o exercício ilegal da profissão. Ela afirma ter participado recentemente de uma “varredura” que reuniu provas contra pessoas que atuavam sem registro e que na ocasião um corretor registrado no conselho (que não citou o nome) foi pego praticando auxílio ao exercício ilegal da profissão. Regina defende fiscalização permanente, punição dos envolvidos e ações de capacitação sobre corretagem, regularização e avaliação de imóveis. A estratégia inclui denúncias formais à delegacia policial, ao órgão e iniciativas para profissionalizar o mercado local.
2% em João Pessoa
A comissão paga pela Tenda, questionada por corretores de imóveis na Capital, faz parte de um modelo escalonado que varia conforme o perfil e a estrutura do profissional ou parceiro. Segundo a construtora oriunda de MG, imobiliárias podem chegar a 5%, considerando custos operacionais, enquanto corretores que atuam de forma digital ou avulsa recebem percentuais menores, de acordo com a estrutura e o canal de vendas utilizado.
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