A incerteza sobre o futuro de moradias e comércios marca a rotina de quem reside no traçado previsto para as obras do Complexo Viário, em João Pessoa. Apesar do avanço dos atos administrativos da Prefeitura da Capital, moradores tradicionais da região afirmam que não receberam nenhuma notificação oficial sobre prazos ou valores de indenização. A intervenção urbana prevê a construção de viadutos, passagem subterrânea, pontilhão e alterações viárias entre a Avenida Beira-Rio e a BR-230.
Entre os afetados está o porteiro Adaílton Fidelis Rodrigues, de 54 anos, nascido e criado no Cabo Branco. Ele conta que a família ocupa um imóvel na Rua Desportista José Eduardo de Holanda há quase nove décadas, posse que foi regularizada através de Termo ainda na gestão do governador Wilson Braga. “Até agora a gente só tem a notícia que vai passar o viaduto, mas ninguém foi notificado pela prefeitura nem sabe de valor”, relatou Adaílton. Na casa vizinha, a jovem Yasmin Gomes expressa apreensão semelhante em relação ao imóvel onde a mãe reside há 46 anos, sem que qualquer comunicado formal tenha chegado à família.
O impacto da obra atinge também a manutenção de pequenos negócios locais. O barbeiro Luiz Deodato Bezerra, de 23 anos, reside no andar superior do prédio onde mantém o seu salão, na descida da ladeira do Altiplano, local ocupado por sua família há 55 anos. Preocupado com a perda do ponto comercial consolidado há um ano, Luiz teme não conseguir transferir a clientela do bairro caso precise mudar de endereço. “O ponto é o que eu estou mais preocupado. Faz mais de seis meses que a gente está nesse boato e até agora ninguém fala nada”, desabafou.
Os primeiros imóveis declarados de utilidade pública abrangem os números 360, 980, 981, 1515, 1518 e parte do número 205 da Rua Desportista José Eduardo de Holanda. O Decreto Municipal nº 11.217/2026 autorizou a Seplan e a Procuradoria Geral do Município a adotarem as providências indenizatórias. O procedimento foi mantido mesmo após recomendação técnica do Ministério Público de Contas para a suspensão preventiva do processo por risco ao erário.
Dias atrás, três auditores sugeriram ao conselheiro André Carlo Pontes a intimação dos secretários Ayrton Falcão Filho (Planejamento) e Rubens Falcão (Infraestrutura), além do superintendente da Sudema, Marcelo Cavalcanti. A auditoria cobra o detalhamento dos processos expropriatórios, a comprovação de posse dos imóveis já desapropriados, a apresentação do cronograma atualizado da obra, estudos geotécnicos e hidrológicos pendentes, e esclarecimentos sobre o licenciamento ambiental do empreendimento.
Cândido Nóbrega