Há um ano, quatro novos empreendimentos imobiliários foram anunciados em Fundão, em Portugal. Dois não saíram do papel e os outros dois continuam na fase de fundação. Para o engenheiro paraibano Caio Gomes, que vive e trabalha no município, as obras paradas têm explicação na política do país. Portugal precisa de cerca de 80 mil trabalhadores a mais na construção civil e, ainda assim, acelera a saída de imigrantes em situação irregular.
Perguntado se vê contradição nessa política, ele responde citando os estrangeiros que chegam com dinheiro para comprar casa: “Sim, há uma contradição, principalmente porque o país oferece incentivos à entrada de capital estrangeiro, inclusive com vistos especiais para quem compra imóveis a partir de determinado valor”.
Freio veio com as novas regras de imigração
Para contratar fora da via dos vistos acelerados, as construtoras agora precisam garantir contrato e moradia antes da chegada do trabalhador, e Caio sentiu o efeito no ritmo das obras. Com menos imóveis concluídos, quem procura casa para alugar paga mais caro, e ele explica por quê.
“Essa falta de imóveis prontos faz os aluguéis subirem, porque a oferta está escassa e a procura continua alta, impulsionada pelos incentivos do governo para os jovens comprarem casa”.
Os estrangeiros já respondem por cerca de 30% da mão de obra da construção civil portuguesa, e ele conta que os brasileiros se destacam nas equipes pela capacidade de assumir funções variadas: “No setor de serviços de construção, há trabalhadores de muitas nacionalidades, o peso dos brasileiros é grande, pela versatilidade e por não haver entraves à realização de tarefas”.
Longa fila de espera
Eles chegam de Fortaleza, Natal, Santa Catarina e São Paulo, e a procura é tanta que um serviço de qualidade exige longa fila de espera. O endurecimento das regras, porém, empurrou parte dessa mão de obra qualificada para a Espanha, onde a documentação sai mais rápido e o brasileiro pode pedir a cidadania após dois anos de residência.
Se pudesse sugerir uma única medida ao governo português, Caio defenderia a regularização rápida dos imigrantes que já estão no país e contribuem para a Segurança Social, equivalente ao INSS brasileiro, como fez a Espanha no início de 2026. A mudança, segundo ele, valorizaria o imigrante na cultura portuguesa, aumentaria a arrecadação do Estado e daria fôlego à economia.
Sobre Caio Gomes
Natural de Patos, no Sertão da Paraíba, tem 38 anos, formou-se em Engenharia Elétrica pela UFCG e fez mestrado na mesma área pela UFPB, com período sanduíche na Universidade de Oakland, nos Estados Unidos. Passou por CPqD, Stellantis, Baterias Moura e Capgemini e vive no Fundão desde outubro de 2021, a convite de uma empresa de serviços de engenharia para o setor automotivo europeu.
Cândido Nóbrega

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